O instante que antecede o evitável é aquele segundo de tensão que segura o desejo dentro do corpo, como quem enfia a vontade dentro dos bolsos e respira fundo enquanto sacode a cabeça e tenta evitar o evitável, afinal tudo pode ser evitado em algum ponto do trajeto.
O evitável torna-se em um segundo inevitável, e entre as folhas de duas árvores que fazem sombra na rua já escura uma pausa. Respire fundo. O desejo dentro da boca vira língua na boca da outra. O desejo dentro da boca. O sentimento dentro da alma.
O instante que antecede as ações penetra-me de forma irreparável como um orgasmo, eu nunca sou a mesma depois de um orgasmo, eu preciso parar e sentir, absorver, sorver a implosão do meu ego (meu ego sim, porque eu preciso que você veja oque eu sinto isso me faz sentir mais) e do meu gozo, minha morfina. MINHA. Como eu dizia, o instante que antecede as ações de fato intriga-me, porque cativa, captura minha atenção toda, faz com que pare pra observar, e quanto mais observo mais sinto.
O instante em que os olhos se fecham pra encostar na boca.
O instante em que as mãos se fecham para encontrarem o rosto.
O instante em que o zíper se abre para tirar a calça.
O instante em que se abrem os braços pra receber um outro corpo.
O instante em que o não vem dilacerar os planos.
O instante em que se sente no corpo todo essas dores sem nome nem rumo.

O instante que antecede o inevitável que poderia ser evitado.
Que antecede apenas, que é um segundo de ar, de falta de ar, de tempo, de limite, de escolha, de caminho, de vida.

O instante que antecede a falta. a dor. 
E em especial, o instante que antecede o sentimento, que é opção, e optamos sempre por sentir, porque ele está alí, porque olhamos para o abismo e saltamos, e é o abismo que vê dentro de nós enquanto caímos, o impossível. O instante. O inevitável.

o amor é o evitável consentido e convertido em inevitável.